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Mobilização e luta social atualmente

O crescimento cego do sistema leva ao crescimento das cidades, da indústria e da infra-estrutura para o transporte e energia, que danificam crescentemente a terra. A expansão do capitalismo leva à mercantilização de cada vez mais aspectos da vida, incluindo a privatização e o aumento do custo da maior parte das necessidades básicas como comida, educação e saúde.

A globalização, uma das caras desse crescimento, implica deslocalizações e um crescimento exponencial das diferenças entre os países ocidentais e o resto.

Frente a todos esses ataques, o jeito mais direto de intervenção é através da mobilização.

Criar movimentos sociais é o jeito que as pessoas que não têm poder econômico, e que não têm influência suficiente em instituições, podem defender aquilo que acreditam. Sem suas ações, a situação seria muito pior do que já é.

Geralmente são ações defensivas para evitar que alguma realidade concreta se torne pior. Independente deste objetivo ser atingido ou não, com a ação se consegue sensibilizar, criar debate e compartilhar novos significados e valores coletivos.

No início desta década (primeira década do seculo XXI), e mais recentemente em face às manobras institucionais que tiram proveito da seca, a luta contra a transferência de água do rio Ebro não apenas alcançou seu objetivo específico, graças a uma mobilização em massa, mas ocasionou reflexões e propostas focadas em uma nova cultura de água. Além disso, durante a última década, dezenas, talvez centenas de plataformas surgiram pelo país, em defesa de espaços naturais, rurais ou culturais. Há dúzias de exemplos, tais como Salvem Empordà, Salvem Montserrat, Save Can Ricart... Todo esse movimento para salvar a terra levou a um novo slogan: por uma nova cultura da terra.

Enquanto escrevemos estas linhas, a luta contra o MAT se mantém cada vez mais firme a mais ampla – a conexão de eletricidade de altíssima voltagem entre a França e o estado Espanhol – um simbolo do crescimento baseado na energia que nos leva a lugar nenhum, e com essa idéia de solidariedade entre as pessoas, nós aprendemos a dizer “não ao MAT, nem aqui, nem em qualquer outro lugar; nem subterrâneo, nem aéreo”.

Em geral as mobilizações têm por fim manter ou conquistar direitos básicos como moradia, alimentação saudável, educação, ou direito ao próprio corpo.

Nesse âmbito, são importantes as mobilizações de V de Vivienda (como “M de Moradia”, em espanhol), para recuperar a moradia como um direito, em épocas em que aluguéis e hipotecas tornaram-se tão caros que para conseguir pagá-los, milhões de pessoas têm que deixar-se explorar em empregos precários. Na área de alimentação, devemos lembrar da campanha chamada “Somos o que Semeamos”, que coletou 105.896 assinaturas em uma Iniciativa Legislativa Popular para exigir uma Catalunha livre de transgênicos uma etiquetagem clara diferenciando os alimentos que levam transgênicos dos que não. Ainda não se sabe como o Parlamento Catalão irá responder a esta demonstração de participação social e consciência cidadã.

No campo da educação, durante os últimos anos, o chamado Processo de Bologna para estabelecer a área de educação superior na Europa mostrou-se uma ameaça à universidade pública, reforçando a sua dependência da iniciativa privada e do poder aquisitivo dos estudantes. Diversos coletivos de estudantes, pesquisadores e funcionários de universidades estão se opondo ao processo. Finalmente, no começo de 2008, frente a uma ordem judicial ofensiva contra o direito ao aborto, diversos grupos se mobilizaram para defender o direito ao nosso próprio corpo e para a descriminalização do aborto, para que seja livre e incluído nos planos de saúde.

Seguindo essas mobilizações, nos últimos meses apareceram lutas em defesa do emprego e pelos direitos dos imigrantes.

Em 9 de junho de 2008, o Ministro Europeu do Emprego aprovou uma mudança na Diretriz de Tempo de Trabalho da União Européia que permite a extensão da jornada de trabalho de todos os trabalhadores para até 60 horas semanais, e para até 65 horas semanais no caso de alguns grupos específicos. Isto aconteceria através de acordos entre o trabalhador e a empresa, atacando também o direito à negociação coletiva. Desde então, vários grupos e sindicatos alternativos começaram a se mobilizar, e estão preparando respostas que em breve serão anunciadas. Alguns dias depois, em 18 de junho, a Diretriz de Retorno Europeu foi aprovada, sobre a expulsão de imigrantes sem documentos, conhecida popularmente como a “diretriz da vergonha”. Esta legaliza a detenção de uma pessoa sem permissão de residência por até 18 meses, seguido de sua expulsão. Uma vez fora da União Européia, é proibido o retorno por um período de 5 anos. Mais uma vez, numerosos coletivos de pessoas diretamente afetadas e grupos solidários, assim como diversas personalidades, se manifestaram contra a diretriz, e continuam as mobilizações contra suas aprovações.

Em todas essas ações, os movimentos sociais seguiram estratégias diferentes, às vezes combinando várias para alcançar seus objetivos legítimos. As mais visíveis geralmente são demonstrações, passeatas, bloqueios-sentado, e outros métodos participativos de tomar as ruas em protesto ou revindicação de uma questão especifica. A estratégia que requer o maior comprometimento talvez seja a de desobediência civil, em que indivíduos ou grupos arriscam sua integridade física ou sua liberdade em defesa de suas crenças. Por exemplo, ações diretas, que freqüentemente são em defesa da terra, foram usadas para impedir a destruição do meio ambiente quando outros métodos falharam.

Quando a ocasião exige, não se deixa de utilizar opções legais como denúncias ou Iniciativas legislativas populares, para defender e reivindicar as próprias idéias.

Um exemplo de eventos que acompanharam essas lutas foi o Fórum Social da Catalunha, em janeiro de 2008, um encontro em que vários seminários, conversas e oficinas contribuíram para decidir diversas estratégias a serem seguidas e um calendário de mobilizações.
Há outras estratégias que não iremos mencionar, para não alongar excessivamente esse artigo.

Para resumir, é importante enfatizar que, em geral, não há muitas diferenças nos modos de ação de diferentes movimentos sociais. Muitas vezes, a mesma pessoa usa diferentes estratégias dependendo do tempo e da oportunidade. Geralmente essas estratégias são entendidas como positivas, se há capacidade econômica e humana para realizá-la.

Precisamente, a existência de tantas lutas diferentes para nos defendermos contra os diversos ataques da vida capitalista moderna é muitas vezes usada como prova de que movimentos sociais são desorganizados e de que não existe alternativa de modelo de sociedade. Em algum momento quem sabe isto tenha sido verdade, mas em anos mais recentes tem surgido um grande processo de convergência, que talvez não seja visível na rua, mas está tomando forma na vida cotidiana de várias cidades e bairros. Este processo foi acompanhado da deslegitimação de partidos políticos e das instituições dessa suposta democracia, que reduziu ao mínimo as esperanças de que a mudança possa chegar por estes meios, ao mesmo tempo em que ousamos imaginar e começar a construir outros formas de mudar o mundo.

Apenas em um nível municipal ainda existe debate sobre o uso de métodos institucionais, encorajados pelo crescimento das Candidaturas da Unidade Popular (CUP), que têm em comum com os movimentos sociais a vontade de mudar as coisas a partir do âmbito local.

Por outro lado, nestes últimos anos, se iniciaram e se consolidaram muitos projetos, o que nos permitiu transformar, aqui e agora, ao menos alguns aspectos da nossa realidade. E cada dia são mais!

Nas páginas a seguir, nos aprofundaremos nas peculiaridades deste movimento dos movimentos, que apesar de aparecer nos meios de comunicação de tempos em tempos de maneira um tanto fragmentada, em nenhum caso se insinua que pode significar a semente de uma alternativa global ao sistema atual.

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